Seu Anselmo tinha setenta e oito anos e uma rotina tão precisa quanto o relógio antigo pendurado na parede da sala. Acordava às seis, regava as plantas, lia o jornal e reclamava da letra miúda das notícias. “Esses jornais querem cegar a gente”, dizia, apertando os olhos.
Numa manhã chuvosa, sua neta Clara apareceu com uma caixinha embrulhada em papel azul. — Presente atrasado de aniversário.
Dentro havia um par de óculos simples, de armação fina e lentes claras. — Experimente, vovô.
Anselmo colocou os óculos sem entusiasmo. No mesmo instante, arregalou os olhos. A sala parecia diferente. As paredes gastas brilhavam limpas, o sofá velho parecia novo, e até o vaso rachado da janela surgia inteiro.
— O que você fez nisso? Clara sorriu.
— Só coloquei.
Desconfiado, Anselmo saiu à rua. E então percebeu algo ainda mais estranho: os óculos não mudavam as coisas, mudavam o modo como ele as via.
A padaria, antes “mal atendida”, estava cheia de gente trabalhando apressada. O rapaz do caixa, sempre sério, carregava olheiras profundas. A vizinha barulhenta, que ele tanto criticava, empurrava sozinha a cadeira de rodas da mãe. Ao olhar para as pessoas, via pequenos brilhos sobre elas: paciência, tristeza, coragem, cansaço, esperança. Era como se cada coração revelasse segredos silenciosos.
Nos dias seguintes, Anselmo começou a agir diferente. Levou pão para a vizinha. Deixou gorjeta maior ao caixa. Sorriu ao carteiro. Escutou mais e reclamou menos. A cidade não havia mudado. Quem mudara fora ele.
Certa tarde, procurou Clara. — Esses óculos são mágicos.
Ela riu. — Não, vovô. São só lentes comuns. O senhor precisava de grau novo.
— Então por que tudo ficou melhor? Clara segurou sua mão enrugada.
— Porque, quando a gente volta a enxergar direito, percebe coisas que o costume apagou.
Anselmo ficou em silêncio. Pela primeira vez em muitos anos, chorou baixinho. Na manhã seguinte, regou as plantas com mais cuidado. Reparou nas flores novas que haviam nascido sem que ele notasse. O relógio antigo continuava o mesmo, marcando as horas de sempre. Mas o tempo, para Seu Anselmo, agora parecia outro.
Desde então, quem passava por sua janela ouvia menos reclamações e mais convites para café. E todos diziam a mesma coisa: — Seu Anselmo está diferente. Ele apenas ajustava os óculos no rosto e sorria.
Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos e Causos do Portal Idosonews.com
