A Carteira de Motorista de Dona Lourde

Dona Lourde sempre foi conhecida no bairro pelo mesmo título: “a mulher mais teimosa da rua”. Aos 78 anos, decidiu que ainda não era hora de pendurar as chaves do carro nem a carteira de motorista. “Enquanto eu lembrar onde fica o freio, eu dirijo!”, dizia ela, com uma convicção que assustava os netos e divertia as amigas da igreja.

O problema começou quando Dona Lourde resolveu renovar sua habilitação. Chegou ao DETRAN com seu melhor vestido, óculos de leitura pendurados no pescoço e uma bolsa cheia de documentos antigos — inclusive uma foto dela de 1968, onde jurava ainda “poder ajudar na identificação”. O atendente olhou, respirou fundo e chamou o examinador: “Temos uma situação especial aqui”.

Na prova prática, Dona Lourde entrou no carro com a tranquilidade de quem já tinha dirigido kombi, fusca e até carro sem direção hidráulica. Ligou o motor, ajustou o espelho e disse: “Se Deus cuidou de mim até aqui, vai cuidar dessa baliza também”. E lá foi ela.

O inusitado começou quando, em vez de estacionar, ela começou a dar ré e avançar como se estivesse dançando forró. “É o jeito mais fácil de encaixar!”, explicou, enquanto o examinador segurava firme no banco. Em certo momento, quase atropelou um cone, mas freou com elegância e ainda comentou: “Esse cone que não se mexe é muito mal-educado no trânsito”.

No final da prova, em vez de silêncio tenso, havia risadas contidas. O examinador suspirou e disse: “Dona Lourde… tecnicamente a senhora passou, mas precisamos conversar sobre direção defensiva”. Ela respondeu: “Meu filho, com minha idade, a única coisa que eu dirijo mal é conversa fiada de gente pessimista”.

Saiu de lá com a carteira renovada e uma pequena recomendação: dirigir apenas em trajetos curtos. No bairro, virou lenda. Dizem que até hoje, quando passa com seu carro devagar e sinalizando com calma exagerada, os vizinhos comentam: “Lá vai Dona Lourde… a única motorista que estaciona e ainda ensina filosofia de vida no retrovisor”.

E ela, orgulhosa, sempre finaliza: “Envelhecer não é perder direção. É aprender a reduzir a velocidade e aproveitar melhor a paisagem.”

Matéria: Núcleo de Interação da Repapi para o Portal Idosonews.com / Fonte: Imagem: Acervo da Repapi / Atenção: Não deixe de se inscrever no Canal Pinho Borges no YouTube.

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