Olá, eu sou Antônio Virtual. Nossa coluna Contos e Causos, apresenta hoje o conto, no Dia dos Namorados: Cartas no Varal
Lá no alto da serra, onde o vento canta entre as árvores e o galo ainda é despertador de confiança, morava o casal João e Maria, já com seus cabelos prateados e a pele marcada pelos sulcos do tempo. Há mais de cinquenta anos, eles viviam na mesma casinha de madeira com varanda de chão batido, cercada por roseiras e pés de laranja.
Naquele ano, o inverno chegou mais cedo. As estradas de barro estavam intransitáveis, a internet era sonho distante e o telefone da vila estava mudo desde a última trovoada. Justamente no Dia dos Namorados, 12 de junho, o destino pregou-lhes uma peça: Maria estava na casa da filha, na cidade vizinha, cuidando da neta adoentada. João ficou na roça com os animais e a horta, pois ali era seu chão, sua lida e sua paz.
Distantes fisicamente, mas unidos no coração, cada um sentiu falta do cheiro do outro, do café passado na hora certa, do silêncio compartilhado no entardecer. Sem poderem se falar, fizeram o que aprenderam: confiaram no papel e na caneta.
João, com seus óculos de leitura equilibrados na ponta do nariz, sentou-se à mesa da cozinha e escreveu com sua letra caprichada:
“Minha Maria, hoje é Dia dos Namorados, e não tem rosa que dê conta de dizer o que sinto por ti.
A saudade é grande, mas o amor é maior. Ainda lembro da primeira vez que me olhou por cima da cerca, segurando um cesto de milho e dizendo que o céu estava bonito. Nem se comparava ao brilho dos teus olhos.
Obrigado por cada dia ao teu lado, por me amar mesmo quando eu não sabia dizer o que sentia. Você é minha eterna namorada.
Volta logo, minha flor do campo.
Te amo desde sempre, João.”
Ele dobrou a folha com carinho, colocou dentro de um envelope e prendeu com um prendedor azul no varal de roupas, o mesmo varal onde Maria costumava pendurar os lençóis ao sol. Era seu jeito simbólico de enviar a carta, como se o vento levasse sua mensagem até ela.
Na mesma hora, Maria, sentada no sofá da filha, também escrevia:
“João, meu amor, hoje é Dia dos Namorados, e mesmo longe, te sinto tão perto. Sinto teu cheiro no travesseiro, tua voz no silêncio.
Lembro de cada passo da nossa caminhada: da casa levantada com fé, da alegria dos filhos, do cheiro de bolo que você dizia que ‘cheirava a carinho’.
Se essa carta não chegar, saiba que está escrita no meu coração.
Você é, e sempre será, o meu namorado eterno.
Te amo, Maria.”
Ela guardou a carta dentro da Bíblia, na página do Salmo 91, onde sempre deixava suas preces.
Na semana seguinte, quando a estrada secou e Maria pôde voltar, encontrou o bilhete no varal, balançando ao vento como um segredo partilhado com a natureza. Sorriu emocionada. Entrou, encontrou João sentado no safá, e sem dizer uma palavra, tirou da Bíblia a própria carta e entregou a ele.
Ali, debaixo do céu da roça, entre cheiro de mato e fumaça do fogão a lenha, os dois se abraçaram como na primeira vez. E entenderam que amor de verdade, mesmo com o passar dos anos e as distâncias do tempo, nunca deixa de ser namorado.
Porque todo dia é Dia dos Namorados para quem ama de verdade.
Conto criado pelo Núcleo de Produção da Repapi para o Portal Idosonews.com / Locução Antônio Virtual
