Olá, eu sou Francisca virtual. Nossa coluna Contos e Causos, apresenta hoje o conto: A Chuva que fez o Sertão Cantar.
O céu, há meses, era um imenso lençol cinzento e poeirento, refletindo a seca impiedosa que castigava o sertão. O sol, como um grande ferro em brasa, marcava a terra, rachando o chão e dobrando a espinha dos que insistiam em esperar a chuva. Seu Januário, um velho agricultor, olhava para o horizonte com olhos cansados, mas cheios de esperança.
— Ela vem, Maria… Dessa vez, ela vem.
Dona Maria, sua esposa, sorriu com ternura. Sabia que aquela fé inabalável era o que mantinha seu Januário de pé. Os anos de estiagem tinham levado parte de sua plantação, algumas cabeças de gado e quase toda a fartura da casa. Mas nunca, jamais, tinham levado sua esperança.
Naquela noite, algo diferente aconteceu. O vento soprou mais forte, levantando um cheiro de terra quente e úmida. Januário sentiu um arrepio na espinha. Era um sinal. Saiu para o terreiro, olhou para cima e viu nuvens carregadas se formando. O trovão ribombou ao longe, fazendo os galhos secos do juazeiro estremecerem.
Então, a primeira gota caiu. Pequena, tímida, quase como se pedisse permissão para tocar o chão. Logo, vieram outras. Aos poucos, a poeira se acalmou, e a terra, sedenta, bebeu cada pingo com avidez. O barulho da chuva engrossou, e o sertão inteiro pareceu acordar.
— Choveu, Maria! Choveu! — gritou Januário, rindo como menino.
Dona Maria saiu correndo, de braços abertos, deixando a água molhar sua saia já desbotada. As crianças do vilarejo surgiram das casas e dançaram descalças, sentindo o frescor da lama sob os pés. Os sapos coaxaram de alegria, os passarinhos saíram dos esconderijos, e o cheiro de terra molhada encheu o ar com um perfume de promessa e renascimento.
Nos dias seguintes, o riacho voltou a correr, os pés de milho e feijão despontaram na roça, e as árvores secas começaram a vestir-se de verde. O sertão, antes silencioso e árido, voltou a cantar.
Seu Januário olhou para o céu e, de olhos marejados, agradeceu a Deus. A vida, assim como a chuva, sempre volta para quem tem fé.
Conto criado pelo Núcleo de Produção da Repápi para o Portal Idosonius.com/Locução Francisca Virtual
