(Um causo com humor, sabedoria e uma pitada de mistério) –Na pacata cidade de São Vicente do Limoeiro, havia uma personagem conhecida por todos: Dona Ernestina, 82 anos, língua afiada, memória invejável e uma bengala… mas não qualquer bengala. Era A Bengala, com “B” maiúsculo.
Segundo Dona Ernestina, aquela bengala tinha “poderes”. Ela dizia que o objeto, herdado do bisavô tropeiro, conhecia os segredos da cidade inteira. “Essa bengala sabe mais fofoca do que rádio de cozinha!”, afirmava, erguendo o cajado com orgulho.
Os vizinhos riam, mas no fundo desconfiavam. Era só alguém aprontar uma confusão que Dona Ernestina aparecia na varanda, com ar de quem sabia tudo. “Não foi o gato que derrubou as plantas da Dona Odete, foi o neto dela tentando pegar manga no telhado”, dizia. E acertava!
Certa manhã, o clima esquentou no bairro. Sumiu o pudim premiado do concurso da melhor sobremesa da Igreja Presbiteriana. A cidade parou. O pastor pediu calma, mas os olhares desconfiados voavam de um lado para o outro. Foi quando Dona Ernestina, encostada na bengala, disse com aquele tom de novela: – Não se preocupem, minha gente. A bengala já sabe quem foi. Todos riram, mas ela apontou com o cajado: – Foi o Seu Zé Porfírio! Eu?! — o pobre senhor engasgou com o café. — Eu nem como doce por causa da diabetes!
Dona Ernestina bateu a bengala no chão e, com aquele olhar que fazia até criança parar de chorar, disse: – Pois foi o senhor mesmo… mas não por gula, foi por amor.
E então revelou a história: Seu Zé não havia comido o pudim, mas o trocou por um pé de orquídeas raras para presentear Dona Geralda, sua paixão secreta há 40 anos. Todo mundo caiu na gargalhada — inclusive Dona Geralda, que ficou corada como goiaba madura.
A partir desse dia, ninguém mais duvidou dos “poderes” da bengala. Alguns dizem que ela só sabia porque Dona Ernestina tinha ouvidos afiados e amigos fofoqueiros. Outros juram que o cajado tinha vida própria. Fato é que, depois daquele episódio, a bengala virou lenda na cidade.
Dona Ernestina costumava dizer: – “O segredo pra envelhecer feliz não tá na bengala… tá em saber usar os ouvidos, a boca e o coração na medida certa.”
E sempre, ao final, completava com um sorriso maroto: – Mas a bengala ajuda, viu?
Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos e Causos do Portal Idosonews.com
