A ÚLTIMA CARTADA NO DOMINÓ

Toda quinta-feira, às quatro da tarde, a mesa da Praça das Mangueiras se transformava em arena oficial de dominó. Ali se reuniam seu Alfredo, dona Zulmira, seu Agenor e dona Celina — quatro veteranos da vida e especialistas em transformar qualquer partida em campeonato mundial.

Seu Alfredo dizia que jogava “por honra”, embora o perdedor sempre pagasse o pastel. Dona Zulmira era silêncio e estratégia; falava pouco e vencia muito. Seu Agenor, ao contrário, narrava cada jogada com uma memória:
— Esse seis com quatro me lembra 1968…
— Lá vem história — cochichava dona Celina.
Nunca ficava claro se ele quase foi cantor famoso ou se quase foi qualquer outra coisa.

Naquela tarde era a grande final do “Campeonato da Praça”. O troféu? Uma xícara colada numa base com a inscrição: “Glória Eterna”. A plateia era modesta: dois netos, três pombos e o vendedor de caldo de cana. A partida estava empatada. Restavam poucas pedras. O clima pesava mais que consulta médica.

Seu Alfredo olhou suas peças e pensou na vida: nem sempre escolhemos as pedras, mas escolhemos como jogá-las. Respirou fundo e colocou a sua.
Silêncio.
Dona Zulmira ajeitou os óculos, analisou… e, com um sorriso discreto, colocou a última peça. Bateu.

Seu Agenor levantou indignado:
— Estratégia de guerra!
— Experiência, meu filho — respondeu ela. — Depois dos 70 a gente aprende paciência… e cálculo.

Seu Alfredo começou a rir.
— Perdi bonito. E perder bonito também é vitória.

Minutos depois, todos estavam no pastel do seu Dito, rindo das próprias rugas e lembrando histórias antigas. O troféu já não importava. Porque a última cartada nunca era sobre ganhar. Era sobre continuar jogando.

E enquanto houver uma mesa, quatro cadeiras e um punhado de pedras, haverá sempre mais uma partida — e mais uma chance de transformar o tempo em amizade.

Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos e Causos do Portal Idosonews.com

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