
Na pequena cidade de Lagoa do Cedro, todo mundo conhecia Seu Joaquim. Aos 78 anos, chapéu de palha torto na cabeça, suspensório antigo e uma bengala que ele usava mais para apontar defeitos nos outros do que para andar, era considerado uma figura histórica da praça. Mas o assunto do momento não era exatamente Seu Joaquim. Era Matilde. Sua galinha.
Só que Matilde não era uma galinha comum. Segundo Seu Joaquim, ela estava “aposentada por tempo de serviço”.
— Depois de quinze anos botando ovo quase sem férias, ela merece descanso! — dizia ele, sério, enquanto tomava café no banco da praça.
O problema é que Matilde parecia não concordar muito com a aposentadoria. Toda manhã ela fugia do quintal e aparecia em lugares improváveis: dentro da farmácia, no salão de dona Celina e até uma vez na missa de domingo. O padre quase perdeu a bênção final quando ouviu um “cócóricó” ecoando perto do altar. — Essa galinha tem mais vida social que muito jovem! — comentou dona Nair, segurando o riso.
Mas o episódio mais famoso aconteceu numa quarta-feira. Seu Joaquim decidiu levar Matilde para passear na feira, dentro de um carrinho de bebê antigo que pertencia aos netos. — Se cachorro passeia, por que galinha não pode? — argumentou.
No meio da feira, Matilde escapou. Correu entre as barracas, derrubou tomates, bicou um pastel e acabou entrando justamente no coreto da cidade, onde acontecia uma aula de dança para idosos.
A professora, sem perder o ritmo, gritou: — Se ela entrou, ela dança! E não é que Matilde começou mesmo a pular no meio do salão? Seu Joaquim ria tanto que precisou sentar.
Naquele dia, entre gargalhadas e música antiga, ninguém percebeu o tempo passar. E foi ali que dona Margarida, viúva havia muitos anos, se aproximou de Seu Joaquim. — Sua galinha é mais animada que muito cristão em retiro espiritual.
Ele ajeitou o chapéu e respondeu: — E eu achando que ela só dava trabalho…
Os dois começaram a conversar todos os dias na praça. Matilde, sem querer, virou cupido aposentado. Até hoje, quando alguém pergunta por ela, Seu Joaquim responde orgulhoso: — Continua aposentada… mas recusou parar de viver. E depois dá uma risada daquelas que fazem até as rugas parecerem sorrir também.
Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos & Causos do Portal Idosonews.com
