1º de maio. Acordei cedo, como sempre. Hábito antigo de quem passou a vida inteira levantando antes do sol para ganhar o pão. Hoje é Primeiro de maio. Dizem que é o Dia do Trabalhador. Para mim, é também o dia das lembranças.
Abri a janela e vi a rua calma. Antigamente, nessa data, parecia haver outro movimento no ar. Havia discursos no rádio, gente arrumada saindo para festas do sindicato, crianças correndo pela casa porque o pai estava de folga. Hoje o silêncio mora onde antes havia pressa.
Olhei minhas mãos. Já não têm a força de antes, mas guardam a memória de tudo o que fizeram. Essas mãos carregaram sacos, assinaram papéis, apertaram parafusos, seguraram ferramentas, enxugaram suor e afagaram filhos adormecidos tarde da noite. Mãos comuns, como tantas outras, mas que ajudaram a levantar uma vida inteira.
No meu tempo, trabalho não era só emprego. Era identidade. Quando alguém perguntava quem você era, a resposta vinha com a profissão: “sou pedreiro”, “sou costureira”, “sou motorista”, “sou professora”. O trabalho vestia a pessoa por dentro.
Hoje vejo jovens falando de carreira, metas, produtividade, home office. Mudaram os nomes, mudaram as máquinas, mudaram os escritórios. Mas continua igual uma coisa: todo mundo ainda procura dignidade no que faz.
Penso nos que estão desempregados, nos que trabalham demais e vivem de menos, nos que sonham com oportunidade e nos que já não podem trabalhar, mas continuam precisando viver. Primeiro de Maio devia ser mais que feriado. Devia ser espelho.
Na estante da sala, há uma fotografia antiga. Estou nela, mais magro, cabelo escuro, segurando a marmita de alumínio. Sorrio sem saber das contas que viriam, das dores na coluna, das noites mal dormidas. Sorrio porque a juventude acredita que o cansaço nunca chega.
Chegou. Mas trouxe também orgulho. Hoje, aposentado, descobri que descanso não é inutilidade. É recompensa. E que valor nenhum de carteira assinada mede o tamanho de uma vida honesta.
Fechei a janela devagar. Lá fora, o mundo corre. Aqui dentro, agradeço. Porque trabalhei muito. Porque sobrevivi. Porque envelheci. E envelhecer, depois de tantos Primeiro de Maio, também é salário.
Matéria: Núcleo de Produção da Repapi para o Portal Idosonews.com / Fonte: Internet / Imagem: Acervo da Repapi / Atenção: Não deixe de se inscrever no Canal Pinho Borges no YouTube.
