A Missionária das Veredas

Dona Alzira nunca teve pressa. Aos setenta e tantos anos, caminhava como quem conversa com o tempo — devagar, escutando cada passo. Morava numa casinha simples, cercada de mandacarus e silêncio, numa vereda esquecida do sertão.

Foi numa manhã de sol forte que tudo começou. Voltava da feira, com um saco de farinha e um punhado de coentro, quando viu algo estranho à beira da estrada de barro: um livro grosso, coberto de poeira. Parou. Olhou ao redor. Nenhuma alma. O vento soprava seco, levantando pequenos redemoinhos de areia.
— Quem foi que perdeu isso aqui? — murmurou, mais para si do que para o mundo.
Abaixou-se com dificuldade, pegou o livro e limpou a capa com a ponta do vestido. Era uma Bíblia.

Dona Alzira não sabia ler direito. Aprendera só o básico quando menina, antes de a vida exigir mais braço do que letras. Mesmo assim, levou o livro para casa, como quem acolhe algo vivo.
Naquela noite, acendeu o candeeiro, sentou-se à mesa e abriu a Bíblia ao acaso. As palavras pareciam difíceis, mas algumas saltavam aos olhos como se fossem conhecidas de muito tempo: “não temas”, “caminho”, “vida”. Leu devagar. Silabando. Errando. Voltando.

No dia seguinte, fez o mesmo. E no outro. E no outro. Algo começou a mudar.

O coração, antes quieto como açude em seca, começou a se encher de uma água diferente. Dona Alzira passou a falar sozinha — ou pelo menos era o que pensava quem a ouvia. Na verdade, conversava com Deus, ainda sem saber direito como chamá-lo.

Certo dia, ao ler sobre amor e perdão, chorou. Um choro antigo, guardado desde perdas, dores e silêncios que nunca tivera coragem de enfrentar. — Então era isso, meu Deus… Tu nunca tinha me deixado — sussurrou.

Naquela noite, não dormiu. Orou como pôde. E ali, no chão de barro batido, entregou a vida inteira a quem ela agora reconhecia como Senhor. A conversão não veio com trovões nem visões. Veio mansa, como chuva fina no sertão — daquelas que penetram fundo e fazem brotar vida onde ninguém esperava.

Dias depois, tomou uma decisão. Pegou sua Bíblia, agora já marcada e gasta nas bordas, colocou numa sacola de pano e saiu de casa antes do sol nascer.— Pra onde a senhora vai, Dona Alzira? — perguntou um vizinho, espantado.

Ela sorriu, com uma paz que não cabia no rosto enrugado. — Vou contar o que eu achei na estrada. E foi. De vereda em vereda, de sítio em sítio, Dona Alzira caminhava. Parava nas casas, sentava nos bancos de madeira, pedia um copo d’água — e, em troca, oferecia palavras de esperança.

Não pregava como pastor, nem ensinava como doutor. Contava sua história.— Eu achei esse livro perdido… mas foi ele que me achou — dizia, erguendo a Bíblia com mãos firmes. As pessoas ouviam. Algumas riam. Outras se emocionavam. Muitas, silenciosamente, começavam também a mudar.

Com o tempo, ficou conhecida como “a missionária das veredas”. Andava sob o sol, enfrentava cansaço, sede e até desconfiança. Mas nada a fazia parar. Porque, no fundo, Dona Alzira sabia: assim como aquela Bíblia fora deixada à beira da estrada, havia muitos corações esquecidos pelo caminho.

E ela, com passos lentos e fé renovada, decidiu que não deixaria mais ninguém se perder sem ao menos ouvir que ainda havia esperança. E assim seguiu — não com pressa, mas com propósito. Como quem conversa com o tempo… e, agora, também com Deus.

Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos & Causos do Portal Idosonews.com

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