O Breu e a Semente

Seu Zeferino não precisava de calendário. O tempo dele era marcado nas juntas dos dedos, na dor fina no joelho direito e, principalmente, no que os olhos liam na vastidão do céu da Caatinga.
Fazia três dias que a lua minguante tinha sumido de vez. O céu estava um breu só, aquele escuro profundo, aveludado, onde as estrelas parecem alfinetes de prata espetados num pano de anil gasto. Para muitos, a escuridão dava medo. Para Zeferino, dava esperança.
— É no escuro que a semente germina — murmurava ele, sentado em seu banco de pereiro no alpendre, pitando um cigarro de palha apagado.

Aos setenta e oito anos, o corpo de Zeferino parecia feito do mesmo material que a terra lá fora: seco, curtido, cheio de caminhos tortuosos, mas duro de quebrar. Porém, nas últimas semanas, um cansaço estranho lhe pesava nos ombros. Não era cansaço de trabalho, era cansaço de existência. Uma poeira fina que assentava na alma e tirava o gosto das coisas.

Ele esperava a Lua Nova. No sertão, a Minguante serve para faxina. É tempo de cortar madeira para não dar bicho, de capinar o mato ruim, de deixar ir embora o que não serve mais. Zeferino sentira a minguante no próprio peito; sentiu-se diminuir, secar, ficar pequeno diante da solidão da casa de taipa.

Mas a Lua Nova… Ah, essa era outra conversa. — A Nova é a dona do recomeço, Tonho — disse ele para o cachorro vira-lata que dormia aos seus pés. — Quando ela vira, o sangue da gente vira junto. A seiva das plantas sobe. É hora de plantar o desejo.

Naquela noite, o silêncio era tão grande que se podia ouvir o estalo dos galhos secos esfriando depois do sol escaldante do dia. Zeferino levantou-se com dificuldade. Foi até a cozinha, pegou um copo de água do pote de barro e voltou para o terreiro. Ele não olhava para o céu buscando luz. Ele buscava o vazio.— Meu Deus — começou ele, numa conversa antiga com o invisível. — A carcaça tá velha. O lombo dói. Mas a vontade de ver o milho pendoar ainda tá aqui. Me dê a força da virada.

Dizem os antigos que, se você cortar o cabelo na Lua Nova, ele cresce forte. Se cortar madeira, ela racha. Se plantar, vinga. Zeferino queria plantar a si mesmo mais uma vez na terra da vida. Ele queria que aquela lua invisível, escondida na sombra da Terra, puxasse de dentro dele a energia que estava dormindo. De repente, sentiu uma brisa diferente. Não era o vento quente de sempre. Tinha cheiro de promessa. O grilo, que estava calado, soltou um cricrilar tímido. Zeferino sorriu no escuro. Ele sabia. A lua tinha virado.

Não havia nada para ver no céu, mas ele sentia a mudança na gravidade, no peso do ar. Era a renovação. O ciclo se fechava para abrir outro. O escuro não era o fim; o escuro era o útero de tudo o que viria a ser.

Ele entrou em casa, sentindo o passo ligeiramente mais firme. Pegou a enxada que estava encostada no canto da sala e passou o dedo no fio. Amanhã cedo, com a força da Lua Nova, ele limparia o pedaço de terra perto do açude. — Enquanto houver lua virando, a gente vira também — disse ele, apagando o candeeiro
Deitou-se na rede, não como um velho que espera o fim, mas como uma semente que espera, paciente e corajosa, pela primeira chuva. E naquela noite, Seu Zeferino sonhou que era verde outra vez.

Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos e Causos do Portal Idosonews.com


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