Os bichos do céu chegaram!

Nas veredas secas do sertão, onde o chão estala sob os pés e o silêncio só é quebrado pelo canto insistente dos insetos, morava seu Anselmo. Idoso de barba rala e chapéu de palha gasto, ele aprendera a medir o tempo pelo sol e as notícias pelo vento. O mundo, para ele, terminava na curva do rio raso e começava de novo na porteira de casa.

Nunca tinha visto o mar. Dizia que água demais dava medo, porque ninguém aprende a conversar com o que não tem fim. Mas o destino, que gosta de contrariar certezas antigas, levou seu Anselmo a visitar um filho distante, que agora vivia perto da praia.

Naquela noite, o velho sentou-se na areia, desconfiado, olhando o escuro enorme que respirava à sua frente. De repente, o céu se rasgou em cores. Um estrondo ecoou, depois outro, e mais outro. Luzes vermelhas, verdes e douradas explodiam no alto, caíam em faíscas e morriam no ar. O mar devolvia o barulho em ondas assustadas.

Seu Anselmo sentiu o coração bater como zabumba em dia de festa braba. Nunca tinha visto coisa parecida. Aquilo não era reza, nem trovoada, nem castigo de Deus conhecido. Para ele, só podia ser sinal de invasão. — É o fim dos tempos! — murmurou, levantando-se às pressas. — Vieram buscar a gente!

Sem pensar duas vezes, saiu correndo pela areia, tropeçando nas próprias lembranças. As luzes no céu viraram, em sua cabeça, naves redondas, cheias de criaturas de outro mundo, descendo para tomar conta da Terra. Lembrou-se das histórias que ouvira no rádio velho, lá no sertão, falas cortadas sobre discos voadores e sinais do além.

Precisava se esconder. E esconder-se, para seu Anselmo, só fazia sentido num lugar: a casa do compadre. Compadre Zé, homem de confiança, que dividira farinha, seca e promessa. Se o mundo fosse acabar, que fosse junto, de porta fechada e fé firme.

Correu até perder o fôlego, atravessou ruas estranhas e iluminadas demais, até bater na porta da casa simples onde o compadre se hospedava. Bateu forte, quase arrebentando a madeira. — Compadre Zé! Abra, pelo amor de Deus! Os bichos do céu chegaram!

Assustado, o compadre abriu a porta de supetão. Encontrou seu Anselmo suado, olhos arregalados, apontando para o céu colorido ao longe. — Que bichos, homem?

Zé saiu, olhou para o alto e caiu na risada, uma gargalhada larga, dessas que espantam medo. — Isso é fogos, compadre. Festa na praia. Ano novo chegando.

Seu Anselmo ficou em silêncio. Observou melhor. O barulho já não parecia tão ameaçador. As luzes, vistas de longe, tinham mais de brincadeira do que de guerra. O céu continuava inteiro, e o mundo, apesar do susto, seguia no lugar.

Sentou-se devagar na cadeira da varanda, respirou fundo e coçou a cabeça.— Pois eu pensei que era gente de outro planeta — confessou, meio envergonhado. — Lá no sertão, quando o céu faz barulho, é sempre aviso.

O compadre colocou a mão em seu ombro. — Aqui também é aviso, Anselmo. Aviso de que o ano vira e a vida continua.

O velho sorriu, aliviado. Naquela noite, entre um estouro e outro, aprendeu que o mundo era maior do que as veredas onde morara — e que nem todo clarão no céu era ameaça. Alguns eram só convite para recomeçar.

Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos e Causos do Portal Idosonews.com

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