Seu Manoel Joaquim tinha 72 anos — aposentado, saboreando o cafezinho da tarde e a novela das seis. Até que numa manhã de quarta-feira resolveu: “Vou fazer o Enem 2026. Por que não?”
Ele nem lembrava direito onde guardava os óculos, mas guardava bem a memória das taboadas que levava no colégio. “É bom viver aprendendo”, dizia à vizinha que opinava: “Mas menino, prova é para gente nova!”. Manoel sorriu.
No dia da inscrição ele ergueu o braço trêmulo, digitou com uma caneta-tinteiro (porque “caneta esferográfica apaga com o tempo”, explicava) e escolheu: “Curso de Filosofia. Pra ver se me torno aquele avô que joga conversa fora, mas com estilo.”
Ele anotou no calendário: “Dia 1: prova de redação, linguagens e humanas. Dia 2: natureza e matemática.” Era como um cronograma de novelas pipocando na cabeça.
Na véspera, preparou: café forte, chinelo confortável e mais três pacotes de balas de hortelã (porque “a mente precisa de açúcar e frescor”). Quando chegou à sala de provas, via-se ao redor jovens de 17, 18 anos. Ele ajeitou o cabelo, tirou os óculos, respingou um pouco de água no rosto (porque o relógio biológico insiste em esquecer que era manhã), e pensou: “Vou dar conta, nem que eu tenha que usar aquele método antigo de riscar no verso da folha.”
A prova começou — Manoel sorriu no enunciado da redação: “Qual o papel da sabedoria na era digital?” Ele pensou: “Então é pra mim!” E escreveu sobre como um velho com 72 anos pode entender memes, celular, mas ainda lembrar o barulho da máquina de escrever — já extinta — e que isso era uma ponte entre gerações.
Na parte de matemática, veio a questão: “Se x mais y = 10…” Manoel coçou a cabeça, lembrou do ábaco que tinha no primário, e pensou: “Bom, se o ábaco servir, por que não?” Ele riscou, calculou, marcou, e no fim entregou a prova com o orgulho de quem nunca desistiu de aprender.
Quando saiu da sala, viu dois candidatos cochichando sobre “quantos acertos pra passar”. Manoel ergueu a sobrancelha e disse sorrindo: “O meu objetivo já foi cumprido — vim, marquei, vivi a experiência.”
Alguns meses depois, ao ver o resultado, fez uma festa discreta: ligou pra filha, pra neto, brindou com suco de maracujá (“já não bebo chope”, ele dizia) e ficou contando pra vizinha: “Fui o vovô candidato — não sei se passei, mas estive lá!”.
E a vizinha pergunta: “E agora, Manoel, qual será o próximo?” Manoel sorriu largo e respondeu: “Vou aprender programação. Quem sabe rodo uns algoritmos e faço minha própria versão do Enem daqui a cinquenta anos!”
Então, considerando os números recentes (17.192 idosos em 2025) podemos estimar que em 2026 o número de candidatos com 60 anos ou mais poderá ultrapassar 18 mil, se a tendência de crescimento continuar.
Matéria: Núcleo de Produção da Repapi para o Portal Idosonews.com / Fonte e Imagens: Repapi.
