?Vovó Alzira e o Mistério do Bolo Sumido

Aos 70 anos, Vovó Alzira não tinha apenas rugas charmosas e um sorriso maroto — ela também possuía um talento peculiar: farejar encrenca a quilômetros de distância. No bairro, era conhecida como “a Sherlock Holmes de coque e chinelo”.

Tudo começou numa ensolarada tarde de sábado. Alzira havia passado a manhã inteira preparando seu famoso bolo de fubá com erva-doce — receita guardada a sete chaves desde 1973. O aroma se espalhou pela rua, atraindo olhares curiosos, narizes empinados e, claro, boatos.

— Dona Alzira, a senhora tá assando aquele bolo que derrete na boca? — perguntou o Seu Milton, o vizinho, com um brilho suspeito nos olhos.
— Tô sim, mas pode tirar o cavalinho da chuva. Esse é pro café de amanhã com minhas amigas do dominó. — respondeu ela, fechando a janela da cozinha como quem fecha um cofre.

Às 15h47, o bolo saiu do forno, dourado, fofinho e com um perfume que dava vontade de abraçar a forma. Alzira o colocou sobre a mesa para esfriar, cobriu com um pano e foi dar uma “espiadinha” na novela.

Quando voltou… o bolo havia sumido.

Não um pedaço, não uma fatia — o bolo inteiro!
Alzira ficou de boca aberta, mas seu instinto investigativo logo entrou em ação. — Ahá… Temos um ladrãozinho com fubá nos dedos!

Ela examinou a cena: no chão, uma trilha de farelos seguia até a porta dos fundos. Lá fora, o portão estava semiaberto. No jardim, encontrou a primeira pista concreta: um guardanapo com estampas de galinha, igualzinho ao que seu neto Juninho costuma usar no lanche da escola.

Seguindo a “trilha do fubá”, Alzira chegou até a garagem. Lá estava Juninho, com um rosto de quem havia sido pego com a boca na botija… e o bolo, ou melhor, o esqueleto dele, já faltando três quartos.

— Mas vó… — começou ele, tentando justificar-se com a boca cheia. — Eu só queria provar um pedacinho, mas… ele foi se acabando sozinho!
— Sozinho? Ah, claro… igual aquele refrigerante que “evaporou” semana passada. — respondeu ela, cruzando os braços.

O que Juninho não sabia é que Vovó Alzira tinha câmeras de segurança na cozinha — instaladas depois que o Seu Milton “acidentalmente” levou pra casa uma travessa inteira de coxinhas no Natal. Ao ver as imagens, Alzira quase caiu na risada: o neto havia entrado sorrateiro, pegado o bolo com as duas mãos e, no caminho, deixado o cachorro Bolota comer as beiradas. No fim, ela não brigou.
No domingo, serviu para as amigas do dominó um bolo novo, ainda mais gostoso, e contou a história em detalhes, fazendo todas gargalharem.
— Moral da história — disse Alzira, piscando o olho — bolo de vó não some… ele é sequestrado com amor.

Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos e Causos do Portal Idosonews.com

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