Crônica: 1º de Maio no Olhar de um Aposentado

Hoje é 1º de maio. E enquanto muitos ainda se levantam cedo para o batente, eu acordo mais devagar, com o corpo já acostumado ao silêncio da rotina e ao cheiro do café fresco. Do meu quintal, observo a vizinhança se agitar menos que o normal, feriado nacional, Dia do Trabalhado.

Me pego pensando. ainda sou um trabalhador? Já fui, por décadas. Fui pedreiro, depois vigia, e nos últimos anos, zelador de escola. E mesmo aposentado, parece que o trabalho não me largou. Ainda cuido da horta, dos netos, dos conselhos que os mais jovens insistem em pedir (e às vezes, em não seguir).

Nessa data, falam muito dos direitos, das lutas, dos salários e dos protestos. Lembro bem das greves dos anos 70, do medo e da coragem que andavam de mãos dadas. Lembro também da chegada da carteira assinada como um troféu. Era pouco, mas era digno.

Hoje vejo discursos nas redes, nas TVs, nas ruas. Gente, cobrando respeito e valorização e roubando o cidadão. E penso. será que se lembram da gente? Dos que abriram o caminho com os pés descalços e as mãos calejadas?

Porque nós, os aposentados, somos os trabalhadores de ontem. Fomos nós que colocamos tijolo sobre tijolo nas escolas onde hoje ensinam os netos. Que passamos madrugadas costurando, arando a terra, limpando escritórios, atendendo balcões. Fomos parte da engrenagem que fez este país funcionar, e que ainda faz, mesmo que nos bastidores.

A aposentadoria nunca foi um presente. Foi suor convertido em benefício. E, diga-se de passagem, um benefício cada vez mais ameaçado. Lutamos por reajustes justos, por uma Previdência que não nos humilhe, por políticas que nos permitam viver com saúde, dignidade e autonomia.

E o mais curioso é que, mesmo fora da folha de pagamento, ainda trabalhamos. Não há descanso para quem cuida de neto, acolhe filhos adultos que voltam para casa, ajuda na igreja, lidera associações, ou oferece uma palavra amiga à vizinha que ficou viúva. Continuamos ativos, mesmo que o contracheque diga o contrário.

Mas há também o cansaço. O peso das reformas que parecem querer apagar conquistas históricas. O desrespeito mascarado de esquecimento. O etarismo que tenta nos empurrar para os cantos como se fôssemos peças antigas de um museu empoeirado.

Neste 1º de maio, queria que se lembrassem de nós com o mesmo fervor com que lembram dos que estão nos escritórios e fábricas. Que reconhecessem nossa trajetória como parte viva da história do trabalho. Que enxergassem que a luta de hoje também é nossa — porque cada corte, cada reforma, afeta não só quem está na ativa, mas quem construiu as bases desse presente.

A verdade é que o Dia do Trabalhador é também o nosso dia. E devia ser celebrado com gratidão e justiça. Porque, no fim das contas, envelhecer trabalhando é uma dádiva, mas envelhecer com dignidade é um direito.

E é por isso que sigo aqui, de olhos atentos e coração firme. Ser aposentado é continuar lutando, por mim, pelos meus, e por todos os que virão…apesar de observar o “mar de corrupção” que espumam sobre nossos salários tentando tragar o que nos resta: a vida digna.

Queria celebrar, mas só resta se indignar.

Matéria produzida pelo Núcleo de Produção da Repápi para o Portal Idosonius.com/Locução Huberto Virtual.

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