Um Chamado ao Sertão aos 70 anos

Aos 70 anos, seu João sempre acreditara que sua vida já havia sido vivida. Ele crescera, se casou, criou filhos e netos, trabalhara duro em sua pequena oficina de sapateiro.

A aposentadoria lhe trouxe descanso, mas também um certo vazio. A rotina de todas as manhãs com o rádio no volume baixo e os biscoitos de goma já não o preenchiam mais. Era um homem de fé, frequentador assíduo da pequena igreja da cidade, mas nunca pensara que Deus ainda tivesse um grande propósito para ele.

Certo dia, enquanto orava ao pôr do sol, uma inquietação invadiu o seu coração. Ele sentiu um chamado, como uma voz que sussurrava em seu íntimo: “Vá ao sertão, leve minha palavra onde a luz é pouca, mas o desejo de conhecê-la é grande.” Seu João ficou em silêncio por um tempo, olhando para o céu avermelhado. Aos 70 anos, seria possível que Deus o estivesse chamando para algo tão desafiador?

Ele compartilhou o que sentiu com sua esposa, Dona Maria, que apesar da surpresa, o olhou com ternura e disse: “Se Deus te chamou, Ele te dará fouças.” Com essa confirmação, seu João preparou uma pequena mala e partiu para o sertão, uma terra de poucas chuvas e muitas dificuldades, mas onde a esperança florescia nos corações.

As primeiras semanas foram difíceis. A região, sem eletricidade, era iluminada apenas por lamparinas e querosene. As noites eram silenciosas, exceto pelo som do vento e dos grilos, e as pessoas viviam espalhadas em pequenos assentamentos. Ainda assim, João começou a visitar as famílias, a ouvir suas histórias e a falar do amor de Deus. Pouco a pouco, a mensagem foi se espalhando. As pessoas se reuniam ao redor das pequenas chamas que iluminavam suas casas, e, assim como o óleo da lamparina, a fé se espalhava e crescia.

Em menos de 10 anos, uma igreja estava formada. Não era um grande templo, mas um pequeno espaço de madeira e barro, construído pelas mãos de homens e mulheres que, tocados pela mensagem do evangelho, se uniram para adorar. Todos os domingos, ao cair da noite, o povo do sertão se reunia ali, debaixo das estrelas, iluminados pelas lamparinas a querosene. A luz era fraca, mas a fé brilhava intensamente.

João, agora com quase 80 anos, sentava-se no primeiro banco e, com os olhos cheios de lágrimas, agradecia a Deus por tê-lo escolhido para aquela missão. Ele não era o missionário mais jovem, nem o mais forte, mas sua obediência havia trazido vida àquele lugar. E, assim como a luz das lamparinas, sua fé continuava a brilhar, mesmo nos cantos mais sombrios do sertão.

A chama de Deus, afinal, nunca se apaga.

Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para o Portal Idosonews/ Locução Francisca Virtual

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *