Por Pinho Borges
Disse Deus: Quanto a vós frutificai, e multiplicai-vos; povoai abundantemente a terra, e multiplicai-vos nela.
Mas, nos últimos anos, um fenômeno curioso e, para muitos, alarmante vem ganhando espaço em diversas sociedades ao redor do mundo: a substituição da parentalidade tradicional por alternativas que vão de animais de estimação a bonecos hiper-realistas de silicone. O que antes era visto como exceção, agora ganha contornos de tendência – e levanta a inquietante pergunta: o que nos aguarda no futuro da humanidade?
De bebês a pets – Tudo começou de forma aparentemente inocente, com o crescimento do número de pessoas que optavam por não ter filhos e, em vez disso, adotavam animais de estimação. A eles se destinavam nomes, roupas, festas de aniversário, planos de saúde e perfis em redes sociais. “São meus filhos de quatro patas”, diziam com orgulho.
As justificativas eram muitas: custo de vida elevado, insegurança, medo do futuro, carreira, liberdade pessoal e até questões ambientais. Com o tempo, essa escolha deixou de ser apenas uma alternativa e passou a ser um novo estilo de vida.
A era dos bonecos de silicone – Mas a história não parou por aí. Em países como o Japão e até mesmo no Brasil, está em ascensão a adoção de reborn dolls – bonecos ultrarrealistas feitos de silicone que imitam bebês com detalhes impressionantes. Esses “filhos artificiais” não choram, não crescem, não adoecem. Também não exigem sacrifícios emocionais profundos, nem confrontam pais com suas próprias limitações.
O mercado, que inclui carrinhos, roupas, acessórios e até berçários personalizados, já movimenta cifras consideráveis. E a motivação? Solidão, traumas, infertilidade, medo de relações reais. Uma realidade que parece saída de um episódio de ficção científica.
E no futuro… vegetais? – Se a tendência continuar, é possível imaginar que, um dia, a criação simbólica de “filhos” possa se voltar para elementos ainda mais inanimados – como vegetais. Um experimento social? Uma sátira distópica? Talvez não. O culto ao cuidado sem dor, ao afeto sem frustração, à presença sem conflito, pode levar a humanidade a buscar vínculos que não a desafiem, nem exijam reciprocidade.
Um futuro sem continuidade? – Mais do que uma excentricidade moderna, a substituição de filhos por bonecos (ou qualquer outra forma simbólica de afeto) levanta questões profundas sobre o futuro da humanidade. Sem renovação geracional, o que será da cultura, da ciência, da economia, da própria sociedade?
Se a humanidade decidir coletivamente que criar filhos é um fardo maior do que o prazer de ver a vida florescer, talvez estejamos nos encaminhando para um colapso demográfico e emocional, pois a ausência de crianças é também a ausência do futuro.
A busca por sentido – Em um mundo marcado pela pressa, ansiedade, relações líquidas e crises de identidade, talvez a resposta não esteja em condenar quem escolhe cuidar de um pet ou de um boneco, mas em refletir sobre por que os vínculos humanos – especialmente os mais profundos, como a maternidade e a paternidade – se tornaram tão assustadores.
O futuro da humanidade pode não depender apenas da biologia, mas da coragem de enfrentar os desafios do amor real, com todas as suas dores e belezas. Afinal, nenhuma tecnologia substituirá a complexa, transformadora e única experiência de gerar, amar e educar uma nova vida.
