Brasil. Um aniversariante ignorado

De propósito deixei para postar essa matéria hoje, 23 de abril de 2.025.
No calendário, o dia 22 de abril costuma passar em silêncio. Nenhuma buzina soa, nenhuma bandeira tremula, nenhum estudante é convocado a marchar. Poucos sabem, ou lembram, que foi nesse dia, em 1.500, que o Brasil foi oficialmente “descoberto”. Ou melhor: foi avistado por olhos estrangeiros que o batizaram como terra nova, sem se dar conta de que aqui já havia vida, história e gente.

E assim, nosso Brasil nasceu no papel, com tinta europeia e sotaque português. Como um recém,chegado à cena mundial, ainda sem nome certo, já foi Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, depois Brasil, com “s” mesmo, mas com destino traçado: seria terra de exploração, de promessas, de esperanças alheias.

Se fosse uma criança, o Brasil teria tido um parto estranho. Chegou ao mundo sem saber se era lar ou lucro, se era para ser amado ou usado. E assim cresceu: grande demais, diverso demais, rico demais, mas sempre com um quê de abandono.

Hoje, mais de cinco séculos depois, o aniversariante passa o dia quase invisível. Enquanto em outros países datas fundacionais são motivo de festa, aqui o 22 de abril é só mais uma terça, uma segunda, um qualquer dia útil. Ninguém prepara bolo, nem canta parabéns. Nenhuma rede nacional avisa: “Hoje é o dia do nascimento oficial do Brasil.”

Talvez porque o nascimento, nesse caso, veio com um certo desconforto, um parto que ignorou os nativos, apagou as culturas originárias, e que nos trouxe à existência por meio de uma carta enviada a um rei distante. Não havia bexigas, mas cruzes. Não havia doces, mas intenções comerciais. Um aniversário difícil de celebrar, é verdade.

Mas ainda assim é o nosso. É o ponto de partida da nossa história moderna. Um marco que deveria servir, ao menos, para refletirmos quem somos, de onde viemos, e o que fizemos com esse imenso presente (ou herança?) que recebemos.

Ignorar o 22 de abril é, de certa forma, ignorar nossa própria origem. É deixar o aniversariante esperando na sala, sozinho, enquanto todos seguem suas rotinas apressadas. Talvez ele esteja lá, vestido de verde, olhando pela janela e se perguntando se alguém ainda se importa com sua história.

Brasil, aniversariante ignorado, você merece mais que esquecimento. Merece memória. Merece verdade. Merece, quem sabe, que um dia te celebremos com olhos abertos, sem disfarces, sem euforias forçadas, mas com respeito.

Porque só quem reconhece suas origens é capaz de escrever um futuro com mais dignidade. E o seu, Brasil, ainda pode ser bem bonito. Desde que a gente aprenda a te enxergar, de verdade.
Matéria produzida pelo Núcleo de Produção da Repápi para o Portal Idosonius.com/ Locução Antônio Virtual

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