História do Sapato Furado

Seu Geraldo dizia que um homem podia esconder idade, careca e até dívida, mas o sapato contava a verdade inteira.

Aos oitenta e dois anos, morava em Jardim Esperança e carregava um velho par de sapatos marrons que já tinham mais histórias que sola. O pé direito, especialmente, exibia um furo tão conhecido que as crianças da rua o chamavam de “janela do pensamento”.
— Não jogo fora porque ele já sabe meus caminhos — respondia, quando alguém sugeria aposentadoria para o calçado.

O curioso era que o sapato parecia possuir personalidade. Foi com ele que Seu Geraldo conheceu Dona Zefinha, num casamento em 1968. Enquanto dançava um bolero cheio de coragem e pouca coordenação, o salto enganou a sola cansada e ele escorregou direto sobre a mesa dos doces.

O vexame virou romance. — Apaixonei-me pela sinceridade da queda — dizia Dona Zefinha, já falecida há alguns anos, mas ainda morando na lembrança dele.

Numa manhã de feira, o sapato voltou a aprontar. Seu Geraldo caminhava decidido para comprar coentro quando o dedo apareceu pelo furo bem na frente do açougue. Um menino apontou: — Vovô, seu sapato está respirando!

A feira inteira caiu na gargalhada. Sem perder a pose, ele respondeu: — Respirando não, meu filho… fiscalizando o preço da carne. Até o açougueiro bateu palmas. Os netos insistiam: — Vô, a gente compra outro! Mas ele desconversava.

Certo dia, resolveram agir escondido. Compraram um sapato novo, brilhante, moderno, desses que prometem conforto até para atravessar deserto. Seu Geraldo agradeceu, experimentou e ficou calado.

No domingo seguinte, apareceu na praça… usando o velho furado.— E o novo? — perguntou a vizinhança.

Ele sorriu, ajeitando o chapéu. — O novo é bonito, mas ainda não sabe quem eu sou.

O silêncio tomou conta. Então explicou: — Esse aqui já entrou em hospital, igreja, enterro e aniversário. Conheceu alegria, aperto e saudade. Tem remendo de pobreza e poeira de esperança. Não é só couro… é memória costurada. As pessoas sorriram.

Naquela tarde, sentado no banco da praça, olhando os pombos brigarem por migalhas, Seu Geraldo concluiu: — A vida é parecida com sapato furado. A gente passa vergonha às vezes, leva chuva, junta poeira… mas se ainda serve para caminhar e guardar histórias, merece respeito.

E ali ficou, com o dedo discretamente aparecendo pela “janela do pensamento”, enquanto a praça aprendia que certas riquezas não brilham na vitrine — caminham silenciosas ao lado da gente.

Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos & Causos do Portal Idosonews.com