Conto& Causos – No fundo do quintal de seu Anselmo havia um pé de jabuticaba que parecia mais velho do que ele. O tronco grosso, rachado pelo tempo, guardava histórias que ninguém escreveu, mas que todo mundo do bairro conhecia. Era ali, na sombra fresca da árvore, que as tardes ganhavam outro ritmo e os causos nasciam sem pedir licença.
Seu Anselmo dizia que aquele pé de jabuticaba tinha ouvido mais confissões do que muito padre. Quando o sol ficava manso, ele puxava um tamborete, apoiava o chapéu de palha no joelho e começava: “Isso aqui já viu coisa demais, minha gente…”. Bastava essa frase para a vizinhança se achegar, cada um trazendo uma caneca de café ou um punhado de fruta colhida no pé.
Certa vez, contou que foi ali que pediu dona Benedita em namoro. A moça, desconfiada, ficou escondida atrás do tronco, ouvindo tudo. Quando aceitou, dizem que o pé de jabuticaba deu uma flor fora de época, como quem aprovava o acordo. Anos depois, foi naquela mesma sombra que ele chorou a partida dela, em silêncio, conversando baixinho com a árvore, como se fosse gente.
Havia também os meninos, que juravam que o pé sussurrava à noite. Seu Anselmo ria e dizia que era só o vento. Mas ninguém duvidava muito, não. Árvore antiga guarda segredo, todo mundo sabe.
Num verão apertado de seca, quando a terra rachou e o ânimo do povo também, o pé de jabuticaba carregou como nunca. Fruta preta, doce, brilhando no tronco. “É pra lembrar que Deus não abandona”, dizia seu Anselmo, repartindo as jabuticabas como quem reparte esperança.
Quando ele se foi, o tamborete ficou encostado no tronco. E até hoje, quem passa pelo quintal sente que a sombra continua viva, acolhendo lembranças. Porque certas árvores não dão só frutos: dão abrigo, consolo e história. E aquele pé de jabuticaba segue lá, ensinando que a vida, quando partilhada, fica mais doce.
