EHoje ao final de 2025, olho para o calendário com menos pressa e mais cuidado. O ano que passa não pede explicações, pede aceitação. Já não discuto tanto com o tempo como fazia antes; aprendi que ele não se deixa convencer. O que ele oferece, oferece. O que leva, leva em silêncio.
O ano passante foi como um velho álbum de fotografias: algumas imagens amareladas pela dor, outras surpreendentemente vivas. Houve dias em que o corpo falou mais alto que os planos, em que a memória tropeçou em nomes conhecidos, e o cansaço chegou antes do entardecer. Mas também houve manhãs simples, quase invisíveis, que hoje reconheço como preciosas: o café quente, a conversa sem urgência, o sol entrando pela janela como quem pede licença.
Aceitar o ano que passou é aceitar a mim mesmo como estou. Não como fui, nem como imaginei que seria aos 73, mas como sou agora. Com limites mais claros, sim, mas também com uma liberdade que só a idade concede: a de não precisar provar nada a ninguém. A vida já me ensinou o suficiente para que eu pare de brigar com o que não volta e passe a cuidar do que ainda respira em mim.
O ano de 2026 não chega com promessas grandiosas. E isso é um alívio. A esperança, hoje, não faz barulho. Ela se senta comigo, devagar, e me pergunta se ainda quero caminhar um pouco mais. Quero. Não para correr atrás do tempo, mas para andar ao lado dele.
Espero menos excessos e mais inteireza. Menos planos longos e mais dias bem vividos. Espero saúde possível, não perfeita; alegria discreta, não eufórica; e relações verdadeiras, mesmo que poucas. A esperança, em 2026, não é de recomeço total, mas de continuidade com sentido.
Se o ano passado me ensinou a soltar, o ano que vem me convida a confiar. Confiar que ainda há manhãs esperando, palavras a serem ditas com calma e silêncios que não doem. Confiar que envelhecer não é desaparecer, mas tornar-se essencial.
Assim sigo: aceitando o que ficou para trás com gratidão a Deus, e abrindo espaço, com serenidade, para o que Ele tem ainda a me oferecer. Porque, aos 73 anos, aprendi que o futuro não precisa ser grande — basta ser verdadeiro.
Rev. Pinho Borges
