Memórias de um Rádio de Pilha

O rádio chiava baixinho sobre a mesa de canto, ao lado da poltrona puída onde o senhor Antônio passava as tardes. Era um pequeno rádio de pilha, com o botão de volume gasto e a antena torta, mas ainda fiel companheiro de suas solidões sonoras.

Naquela manhã de domingo, o locutor anunciava um programa de modas antigas, e logo os primeiros acordes de “Carinhoso” encheram o ar. Antônio fechou os olhos e sorriu. O som parecia abrir gavetas antigas da memória, daquelas que a gente guarda bem no fundo para não doer.

Lembrou-se de quando comprou aquele rádio, em 1974. Trabalhava como cobrador de ônibus e passava os dias rodando pelas ruas de Recife. O rádio de pilha era seu refúgio — companhia nas longas esperas, nas paradas silenciosas, nos dias em que a chuva caía fina e o coração também se molhava.

Foi com aquele mesmo rádio que ele ouviu o gol do tricampeonato, vibrando com Pelé e o grito do narrador que ecoou por toda a vizinhança. Foi também com ele que escutou a notícia da partida de Kennedy, e, mais tarde, as orações transmitidas nas madrugadas de insônia.

Mas o melhor som, pensava ele, não vinha do rádio — vinha das risadas de Dona Lúcia, sua esposa, quando os dois cantoloravam na cozinha ao som de uma música antiga. “Esse rádio toca o tempo, Antônio”, ela dizia, “e o tempo, quando vivido, não envelhece.”

Hoje, Lúcia já não estava mais ali. O rádio, sim. Fiel como sempre.
As pilhas novas eram presentes dos netos, que achavam graça de ver o avô preferir o rádio ao celular moderno que mal sabia usar.

— Vovô, o senhor sabia que dá pra ouvir tudo isso pelo telefone? — dizia o pequeno Miguel, enquanto tentava mostrar o aplicativo de música.
— Sei, meu filho — respondia ele com ternura. — Mas o telefone não tem cheiro de lembrança.

Naquela tarde, o sol entrava pela janela e iluminava a poeira dançante. Antônio aumentou o volume e deixou a música preencher o quarto. Cada nota parecia trazer de volta uma cena: o namoro no portão, o primeiro filho, o churrasco no quintal, os amigos já idos, as risadas e as perdas.

De repente, o rádio fez um leve estalo. O som diminuiu, como se também estivesse cansado. Antônio ajeitou o aparelho com cuidado, soprou o compartimento das pilhas e, como quem fala com um velho amigo, murmurou: – Aguenta firme, companheiro. Ainda temos muita história pra ouvir. E, como por encanto, o rádio voltou a tocar.

O velho sorriu. Lá fora, o mundo era outro — moderno, veloz, digital. Mas ali, naquele quarto simples, o tempo ainda se media em pilhas, melodias e memórias. O rádio continuava a cantar, e Antônio continuava a recordar.
Porque algumas lembranças não precisam de wi-fi — apenas de coração e um bom rádio de pilha.

Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos e Causos do Portal Idosonews.com

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