O Dia em que Vovô Derrubou a Internet.

Na pacata Rua das Andorinhas, onde o tempo parecia caminhar de bengala, todos os vizinhos conheciam o seu Firmino — um idoso de 84 anos, bigode espesso, chapéu de palha surrado e um ar de quem já tinha vivido mais do que o calendário podia contar. Era respeitado, admirado e, de vez em quando, alvo de risadas discretas, principalmente quando se metia a entender das coisas “modernas”, como ele chamava o tal do Wi-Fi.

Vivia dizendo: — Eu já sobrevivi à máquina de datilografar, à televisão preto e branco e ao disco voador do seu Jonas… esse tal de internet não me mete medo!

Tudo começou numa sexta-feira, depois do almoço. Vovô Firmino, de olho no neto Mateus grudado no celular, perguntou:
— Que tanto esse menino fica fuçando nessa telinha?
— É o TikTok, vô! — respondeu Mateus, sem levantar os olhos.
— TikTok? Isso é nome de relógio, não é de gente!

Foi então que decidiu aprender a usar a internet. Ligou o computador que tinha ganhado da filha três natais atrás — um trambolho que mais parecia uma televisão de tubo com teclado — e começou a fuçar. Clicou aqui, clicou ali… e achou o tal do “roteador”.

Lá foi ele, fuçando nas configurações do Wi-Fi. Achou que mudar o nome da rede daria um toque mais “respeitável” à casa. Rebatizou o sinal para “Rede Sênior 1951” e, por capricho, trocou a senha para “CHÁDACASAÀSTRES”.

Mas aí veio o desastre: sem querer, desativou o roteador inteiro. Desligou o Wi-Fi da casa, da vizinhança, do boteco do Seu Raul — que roubava o sinal — e até da congregação que usava a internet pra transmitir o culto ao vivo.

O caos se instalou. Mateus quase teve um troço.
— Vô, o senhor DERRUBOU A INTERNET!
— Derrubei o quê, menino? Eu só cliquei num botãozinho que dizia “resetar para padrões de fábrica” … achei que ia dar uma renovada, que nem no café da manhã!

As crianças da rua ficaram desorientadas, o grupo de idosos no WhatsApp parou de receber os “bom dia com flor e versículo”, e a vizinha fofoqueira perdeu a chance de espiar a vida alheia no Facebook.

Dona Ritinha, sempre exagerada, gritou da janela:
— Foi ataque hacker russo!

E Seu Jonas, o mesmo do “disco voador”, jurou que era coisa do “5G dominando as mentes”.

No meio do pandemônio, vovô pegou o telefone de disco da sala e ligou pro neto: — Ô Mateus, chama aquele rapaz da informática, o sobrinho da moça da padaria… como é o nome dele? Bit… byte… alguma coisa com chip!

Veio o técnico, ajeitou o roteador, restaurou a internet e explicou, com muita paciência, que Wi-Fi não é igual a panela de pressão: não se mexe sem saber.

Vovô então olhou para a sala cheia de netos online de novo, vizinhos conectados e notificações apitando de todos os cantos. Suspirou e disse:
— No meu tempo, a gente conversava olhando no olho. Agora é tudo por esses botãozinhos… Mas confesso que o negócio do Google é danado de bom. Perguntei a ele quantos anos tem o Roberto Carlos e ele respondeu na hora. A filha da Dona Ritinha levou três dias pra saber isso na enciclopédia!

E desde então, Vovô Firmino virou lenda na rua. Sempre que o Wi-Fi falha, alguém diz: — Ih, será que o vovô mexeu de novo?
Mas ele só sorri, cruza os braços atrás das costas e caminha até a varanda, onde o tempo ainda passa devagar — mesmo quando o sinal cai.

Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos e Causos do Portal Idosonews.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *