A RESPONSABILIDADE DE TODOS

A RESPONSABILIDADE DE TODOS

Mais um capitulo do livro Envelhecimento. Cuidado Familiar, da autoria do Rev. Pinho Borges.

A igreja, na qualidade de corpo de Cristo deve  trabalhar  para  preencher  as necessidades dos idosos. O próprio idoso deve contribuir nesta tarefa, pois entende e enxerga melhor as suas necessidades e daqueles que fazem parte da mesma faixa etária.

O cuidado para com a pessoa idosa é uma responsabilidade e dever de todos, pois não é uma tarefa fácil. É uma tarefa desgastante, estressante, que requer habilidade e paciência, por isso, requer a participação de todos.

Quando a pessoa na família começa a envelhecer, é preciso que a mesma, a igreja, e a sociedade entenda que chegou o momento da inversão de cuidados: quem antes cuidava agora precisa de cuidado.

Quando há o compartilhamento das ações, mesmo que haja opiniões e soluções diferentes os resultados são positivos e encorajadores no cumprimento das tarefas. Envolver a igreja e/ou a família no cuidado da pessoa idosa não é uma tarefa fácil, mas é possível. É importante que haja uma conscientização capaz de fazer com que todos os envolvidos entendam que quando a meta for atingida todos terão benefícios.

Quando o cuidado com a pessoa idosa é compartilhado no seio da família com certeza há uma interação e comunhão maior entre os membros da mesma reduzindo o nível de fragmentação familiar.

É provável que alguém queira assumir o controle do grupo, mas isso é normal, principalmente aquele que tem uma relação mais próxima com a pessoa idosa.

Conheci uma idosa que tinha oito filhos que se revezavam diariamente para estar com ela. Mesmos aqueles que moravam em outras cidades a visitavam e compreendiam as suas responsabilidades para com ela e eram informados, opinavam e participavam dos cuidados com a mãe.

Quem tem pessoa idosa na família sabe muito bem que o principal foco de tensão está na questão financeira que se não for bem discutido vai gerar constantes conflitos. Pode parecer, uma situação inusitada, mas este assunto não deve ser relegado a segundo plano por se ter vergonha de se tratar de finanças diante de um quadro de fragilidade familiar. É importante decidir como serão pagas as despesas. Definir um plano que seja conveniente para todos é salutar.

Repartir as tarefas é colocar em prática as ações daqueles que vão cuidar da pessoa idosa que por sua fragilidade requer da família mais cuidados. Como levar ao médico, companheirismo no dia a dia, acompanhamento quando sai de casa, entre outras necessidades, por essas razões a família deve definir quem é responsável por determinada tarefa de acordo com a possibilidade de cada um.

No geral a família não vê a pessoa idosa como um ser carente, acham que ela já está completa em todas as áreas da vida. Isto é um mito. A pessoa idosa pode ter acesso a tudo no campo material, mas com certeza precisa de apoio emocional.

Não é agradável vê o seu ente querido envelhecendo ou vivendo uma situação de uma doença terminal. É neste momento que a pessoa cuidadora mais precisa do apoio familiar.

Aquele que cuida também precisa ser cuidado para poder ter condições de cuidar, por isso que o apoio incondicional de todos é importante para que as tarefas sejam realizadas sem cobranças.

Seria utopia pensar que não surgirão problemas e conflitos na família, mas não se pode esquecer que o alvo é o bem-estar da pessoa idosa. É comum nos primeiros dias dos cuidados haver um espírito solidário muito forte, mas que ao passar dos dias esse espirito vai se fragilizando principalmente quando as dificuldades vão surgindo.

Mas é necessário manter vivo intacto o espírito solidário inicial a fim de evitar erros comuns e o surgimento dos conflitos e discussões. Os familiares não devem esquecer que o foco de interesse é a pessoa idosa e que nessa tarefa a chance de união familiar é cada vez maior.

E quando a pessoa idosa é teimosa? Como a tarefa de cuidar é da família não é fácil cuidar de uma pessoa.

Há pessoa que envelhece mantendo velha as suas ações e hábitos e fica possuída pelo espírito de presunção e não acata sugestões ou conselhos dos outros, principalmente dos mais jovens.

A família precisa entender a situação da pessoa idosa que passou a vida dando ordens e tomando decisões, e agora tem que parar de ordenar para ser ordenado, isto significa para ela, perder o poder de comando, por isso a família precisa aprender a lidar com seu “idoso velho”.

Não existe coisa mais chata do que ser conduzido por um garçom para uma determinada mesa em um restaurante quando você tem a possibilidade de escolha?

As pessoas não gostam que lhes seja dito o que devem fazer ou como se devem se comportar em determinado cenário, imagine uma pessoa idosa. Para ela a situação se torna mais desagradável.

Isso acontece porque a pessoa idosa com hábitos velhos sempre coloca dificuldades em tudo, reclamam de tudo nada dá certo para ela, e por ter medo no novo, rejeita opiniões que vão de encontro as suas posições tradicionais.

Quebrar paradigma não é algo de fácil para a pessoa idosa principalmente na área da saúde. Por exemplo. Convencer um idoso a fazer um toque retal em exame na próstata não é uma tarefa fácil, embora lhe seja informado que é alto o índice de idosos com câncer de próstata. Em muitos casos a simples tarefa de ir ao médico para cuidar da saúde é uma verdadeira batalha, mas faz parte dos cuidados familiares para com a pessoa idosa.

No geral os filhos encontram maior resistência por parte dos pais, por eles terem sido os detentores da liderança familiar. É normal que a inversão de papéis no ambiente familiar aumente as chances de produção de conflitos. Como a família deve lidar com o idoso?

Primeiro. Deve buscar o diálogo, a compreensão, e não esquecer de agir de acordo com a sua posição de filho, neto ou outro porque a responsabilidade será cobrada de quem cuida de uma pessoa idosa.

Segundo. Lembre-se a negligência, o abandono de incapazes é crime, com punição e detenção, para o acusado se caso comprovada alguma violência contra a pessoa idosa.

Terceiro. A família que cuida tem legitimidade para agir e tomar as decisões sensatas; a ela cabe a responsabilidade de zelar pela integridade física da pessoa idosa não só em casa como também nos espaços públicos.

Quarto. A falta de cuidados com a medicação, uma queda ou não ser socorrido em tempo hábil são motivos de acusação por negligência. Ao cuidar tenha a consciência de estar tomando a melhor decisão; nem sempre fazer a vontade da pessoa idosa é a melhor decisão. Por exemplo: a maioria das mulheres idosas moram sozinhas por questões de independência e privacidade, mas isto oferece altos riscos, pois não vai ter alguém para socorrê-las em caso de urgência.

Quinto. A família deve providenciar instrumentos de monitoramento sem cecear a liberdade da pessoa. Ao cuidar de seu/sua idoso (a) é preciso exercer autoridade de forma amorosa, quando necessário.

Sexto. A família deve está segura no que diz e no que faz pois só assim haverá respeito de todos. A perda do respeito acontece quando quem cuida recua constantemente em suas decisões, e nem sempre apresenta razões convincentes. Conheci um idoso que nos seus 82 anos ainda dirigia e não aceitava aposentar o volante do carro. Deu muito trabalho para demovê-lo do seu querer. Até já se brincava com ele dizendo: “Fulano no volante, um perigo constante”. Mostrar provas de fatos pode influenciar para reduzir a teimosia de pessoas idosas.

Sétimo. No cuidar da pessoa idosa a família deve mostrar que ela não só, que há alguém ao lado dela e com ela, lhe oferecendo cuidado, atenção e amor. É importante não deixar que a pessoa idosa se isole por isso a família deve mostrar afinidade com os hábitos dela.

Oitavo. A família deve lembrar sempre que na estrada do envelhecimento muitos idosos são presunçosos e não acolhem os conselhos da família a fim de melhorar a qualidade de vida. Ficam “velhas” em suas ações, e por teimosia, orgulho recusam ajuda por não aceitar a condição de idosa, colocando em risco a sua própria vida.

Nono. A família deve conversar sempre com a pessoa idosa mostrando-lhe a realidade das suas limitações, e sempre aconselhar a aceitar auxílio ao descer ou subir degraus, no acesso a locais de riscos, entre outros. No geral as pessoas gostam de ser independentes quer seja idosa ou não, e isto é bom, mas a família deve se manter vigilante quanto a independência de seus idosos.

Decimo. A família deve aprender a tornar os dias de uma pessoa idosa mais agradáveis, física e emocionalmente, isto é muito importante.

Muitas famílias procuram uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), quando seu ente querido chega a uma determinada idade. Algumas agem para que a pessoa idosa possa receber cuidados 24 horas por dia, outras por conta do chamado “peso social” e há algumas que querem se apoderar antecipadamente dos bens da pessoa idosa afastando-o do convívio familiar.

 Não importa a razão; privar a pessoa idosa do ambiente familiar é uma violência cruel e inominável porque retira dela a sua cultura familiar e residencial para fazê-la aprender novos hábitos e costumes.

Para evitar esse tipo de afastamento familiar o diálogo é fundamental no trato com as necessidades exigidas pelo cuidado familiar para com a pessoa idosa, pois é através deste cuidado que se tem conhecimento das reais necessidades do ente querido. Em diversas famílias é quase impossível os filhos agendarem visita no dia a dia dos pais. Mas é possível aos filhos fazerem um ‘rodízio de temporadas’ na qual os pais idosos visitem as casas dos filhos, isto é, se eles aceitarem a participar dessa modalidade de cuidado.

Essa modalidade de cuidado não deve eliminar a residência fixa dos pais idosos e precisa ser muito bem trabalhada com os mesmos para que eles não se sintam como “um peso familiar” e por essa razão está sendo “jogados” de um lado para o outro entre os familiares.

Lembrando que os cuidados na casa passam por acessibilidade e segurança. Por exemplos: iluminação suficiente nos ambientes, a manutenção de uma lanterna ao alcance da pessoa idosa a noite e de preferência a cabeceira da cama, não colocar tapete nos cômodos a fim de evitar quedas, evitar ter móveis pontiagudos, quanto ao gabinete sanitário colocar barras de apoio e sem box de vidro, escada com corrimão, ter agenda telefônica para casos de emergências entre outras medidas preventivas e protetivas.

No geral a pessoa idosa quer ser independente e isso não é ruim, mas há pessoa idosa que necessita de ajuda para a higienização pessoal, fazer compras, cozinhar, ir ao médico, pagar as contas, etc. Nestes casos a família e a pessoa idosa deve estabelecer um roteiro de ações evitando surpresas desagradáveis.

A expressão “Saúde de ferro ou de aço” é muito utilizada pelas pessoas idosas para passar a ideia que estão imunes às doenças. A família não deve levar isso ao pé da letra, mas ficar vigilante e atenta a mudança nos hábitos alimentares, físicos do dia a dia. Lembramos que tanto o ferro como o aço enferrujam.  

No envelhecimento o convívio social é fundamental. Embora aposentadoria seja definida como ‘inatividade’, o ideal é motivar a pessoa idosa a não viver na inatividade.

O envelhecimento não é a espera da morte diante de uma tela de televisão, no embalo de uma cadeira de balanço ou numa cama com a boca escancarada.

Nesta fase da vida a família deve motivar o seu idoso a sair de casa em busca de sociabilidade, nem que seja para jogar conversa fora numa mesa de um shopping tomando um cafezinho com os amigos ou familiares. Outro momento de socialização é motivar a pessoa idosa visitar outro idoso não só para relembrar o passado, mas pensar em novos voos para o futuro porque idoso também sonha. Uma visita a uma pessoa idosa tem muito significado tanto para quem visita ou para quem é visitado.

Em uma de minha estada em Brasília fui visitar os genitores de um amigo e colega de ministério, juntamente com minha esposa, e ele me falou que os pais lhe perguntavam se eu ia visitá-los; fiz a visita e senti como ficaram felizes. Depois o colega me falou o bem que a visita fez aos seus pais. Uma visita, uma boa conversa são ocasiões que deixa o idoso animado.

Para alguns idosos a tão sonhada e desejada aposentadoria tem se tornado um pesadelo. Desejada por todos mas temida por alguns, por conta do fim do trabalho profissional que reduz o vínculo social, e gera ociosidade em muitas pessoas idosas.

Um colega, ex-gerente de banco, me contou que no primeiro ano de aposentaria quando precisava ir à agência onde fora gerente para resolver algum problema tudo acontecia rapidamente, mas no segundo ano, quase ninguém o conhecia, e agora ele era atendido como um cliente comum.

A aposentadoria e o envelhecimento podem formar uma boa parceria que deve ser aproveitada ao máximo a fim de gerar benefícios para o corpo e para a alma, resultando em vida ativa e saudável.

No envelhecimento a atividade física ajuda no combate das enfermidades mais comuns que chegam com a fragilização do corpo. A atividade física atua como agente terapêutico e preventivo, ajudando na articulação, mobilidade, circulação e no sistema cardíaco segundo a literatura médica.

Idoso com vida ativa tem o bem-estar aumentado que resulta na melhora da qualidade da vida física e psicológica, pois o corpo sadio produz mente sadia. A atividade física em grupo além de promover serenidade, produz socialização livrando do isolamento da idade as pessoas idosas e oportuniza trocas de experiências.

Certamente que a vida prazerosa estar em Cristo, mas nada impede que o prazer físico seja vivenciado pelas pessoas idosas, pois investir nessa etapa da vida é algo prazeroso e necessário.

As oportunidades de ‘mudança de ar’, vai possibilitam percepções de mundos diferentes a serem conquistados. Por esta razão a família deve colocar seu idoso em seu ‘plano de vida’ proporcionando a ele atividades lúdicas como curtos passeios a locais histórico, cultural ou de lazer, porque há muitas áreas na cidade que a pessoa idosa desconhece.

A família deve incentivar a pessoa idosa a fazer caminhada, não só incentivar, mas ir junto. A caminhada é uma atividade ideal para idosos; o percurso e o tempo devem ter orientação médica. Hoje a maioria das cidades possuem academias públicas com facilidade de uso delas.

Levar o idoso a um espaço de águas termais não só prestigia o lazer como também cuida de forma preventiva da saúde e com possibilidades terapêuticas.

Outra área de incentivos à pessoa idosa é o aprender. Os netos reclamam que já ouviram dos avós a mesma história várias vezes. Isso acontece porque a pessoa idosa parou de aprender. Hoje com a abertura de várias Universidades da Terceira Idade (UNATI), no território nacional criou-se oportunidade para melhorar o conhecimento da pessoa idosa.

Nunca é tarde para aprender.

Certa ocasião, durante a ministração de uma palestra uma idosa, agradeceu a colaboração que eu havia dado em sua monografia. Meditei rapidamente onde teria eu sido seu orientador.

Não lembrando perguntei como teria lhe ajudado. Ela respondeu.

– Utilizei seus livros para a minha monografia em Especialização em Línguas Estrangeiras.

– Onde a irmã vai utilizar esse novo saber? Perguntei.

– Tenho hoje na Igreja um grupo de quinze jovens que ensino gratuitamente na Igreja. Respondeu.

As universidades para idosos tem sido de grande utilidade para o país que pouco a pouco vai permitindo as pessoas idosas tenha acesso à educação.

No Brasil existe muitas instituições a disposição dos idosos e a tendência é que o número cresça. São oferecidos cursos nas áreas de cultura, história, artes, línguas estrangeiras, trabalhos manuais entre outros. No geral são cursos que não tomam muito tempo, aumenta o saber e o conhecimento a pessoa idosa além de produzir a socialização nos momentos de descontração.

Não há idade para o aprendizado por isso a família deve incentivar seu idoso a aumentar o conhecimento. As atividades são adaptáveis as diferentes idades.

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