Conto: Quarta-feira de Cinzas

Na quarta-feira de cinzas, o chão ainda estava sujo de confete, mas o coração de Marcelo estava mais sujo que a rua.
Ele caminhava devagar, segurando o resto de uma fantasia amassada.
A maquiagem borrada no rosto parecia um retrato fiel do que ele sentia por dentro: alegria desfeita.
Três dias antes, ele tinha gritado, pulado, bebido e rido como se a vida fosse eterna e os problemas fossem mentira.
No meio da multidão, era só mais um corpo livre. Ou pelo menos fingia ser.
Mas agora, no silêncio da manhã cinzenta, voltava a ser ele mesmo. Cansado. Vazio. Perdido.
Passou em frente a uma pequena igreja. A porta estava aberta. Lá dentro, poucas pessoas sentadas em silêncio. Não havia música, nem festa, nem aplausos.
Só paz.
Ele ia passar direto, mas algo o fez parar. Talvez o cansaço. Talvez a curiosidade.
Talvez Deus. Entrou e sentou no último banco, tentando não chamar atenção.
Um homem simples falava à frente:
— O carnaval mostra rostos que o mundo aplaude. A quarta-feira de cinzas revela o rosto que Deus vê.
Marcelo sentiu como se aquelas palavras tivessem sido escritas pra ele.
O homem continuou:
— Muitos viveram intensamente nos últimos dias. Mas hoje sentem um vazio que nenhuma música consegue preencher. Esse vazio tem nome. É ausência de Deus.
Marcelo baixou os olhos.
Era verdade. Ele tinha tudo para estar feliz.
Mas não estava.
— Jesus não rejeita quem chega depois da festa. Ele recebe quem chega cansado.
Marcelo sentiu um nó na garganta.
Cansado. Era exatamente assim.
O homem então disse, com voz mansa:
— Hoje pode ser o dia de um novo começo.
Marcelo não entendeu direito o que aconteceu dentro dele.
Mas entendeu que não queria mais sair dali do mesmo jeito que entrou.
Quando o convite foi feito, ele hesitou.
Seu coração disparou como num bloco de carnaval.
Mas dessa vez não era euforia.
Era chamado.
Ele levantou.
Cada passo parecia pesado e leve ao mesmo tempo. Pesado pelo passado.
Leve pela esperança.
Quando se ajoelhou, as lágrimas vieram sem pedir licença. Não eram lágrimas de tristeza. Eram de rendição.
Pela primeira vez na vida, ele não tinha nada a oferecer.
Só a si mesmo.
Em silêncio, disse: — Jesus… eu cansei de fugir. Se o Senhor me quiser… eu fico.
Naquele instante, nada mudou por fora.
A rua continuava suja. O céu continuava cinzento. O mundo continuava o mesmo.
Mas Marcelo não. Ele levantou diferente.
Não havia música, mas havia paz.
Não havia fantasia, mas havia verdade.
Naquele dia, ele entendeu que o carnaval tinha acabado, mas a vida tinha começado.
E, anos depois, ele ainda dizia: — Eu passei muitos carnavais na rua.
E só uma quarta-feira de cinzas na presença de Jesus.
Mas foi essa que salvou minha vida.

Conto produzido pelo Núcleo de Produção da Repapi para a Coluna Contos e Causos do Portal Idosonews.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *